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15 de mar. de 2011

Comissão Europeia qualifica acidente nuclear de apocalipse



Confiança da população no governo enfrenta seu maior teste desde II Guerra

Escombros cobrem área devastada pelo tsunami na cidade de Ofunato
Escombros cobrem área devastada pelo tsunami na cidade de Ofunato (Toshifumi Kitamura / AFP)
A Comissão Europeia qualificou nesta terça-feira o acidente nuclear do Japão de "apocalipse", por considerar que as autoridades locais perderam o controle da situação na central de Fukushima. A confiança da população no governo japonês enfrenta seu maior teste desde a II Guerra Mundial, enquanto o país enfrenta uma crise nuclear. A preocupação é de que uma quebra na confiança alimente o pânico e o caos, se os apelos por calma forem ignorados.

"Fala-se de apocalipse e acredito que é um termo particularmente bem escolhido", declarou o comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, ante uma comissão do Parlamento Europeu em Bruxelas. "Praticamente tudo está fora de controle", acrescentou o comissário, que não descartou o pior nas próximas horas e dias no Japão.
O alerta agora é que a fumaça de radiação liberada pela usina nuclear de Fukushima - danificada pelo terremoto e pelo tsunami que devastaram o Japão na sexta-feira - chegue a Tóquio.
Na região próxima à usina, a preocupação continua, apesar da queda dos níveis de radiação. O problema é que o sistema de resfriamento dos reatores da usina não foi solucionado. Ele parou de funcionar por causa da falta de energia elétrica e da subsequente exaustão dos geradores de apoio, necessários para dar energia às bombas que levam a água do mar até o sistema de resfriamento. Com o sistema avariado, a água chega muito devagar aos reatores e ferve rápido demais. Com a temperatura elevada, as varetas de combustível, que isolam o urânio (o combustível nuclear), podem derreter.

A partir daí, as barras de controle, o vaso de controle (que abriga as varetas e as barras de controle) e ainda a contenção (que abriga o vaso de controle) podem ser danificados com o derretimento do urânio. A situação é considerada grave porque há risco de vazamento do material radioativo. Além disso, o derretimento faz com que o núcleo do reator fique instável podendo ocorrer explosões - elas ocorrem porque o calor faz a água evaporar e no processo sobra hidrogênio, que é altamente inflamável. No limite, o interior do vaso de controle transforma-se em uma bomba.
Os cientistas afirmaram que, caso todos os trabalhadores sejam retirados do local por medida de segurança, será difícil manter o sistema de refrigeração "improvisado".
A agência de segurança nuclear da França ASN disse nesta terça-feira que o acidente nuclear agora pode ser classificado como nível seis (acidente sério), em uma escala internacional que vai até sete (acidente grave). Na segunda-feira, a ASN havia considerado o acidente na usina, localizada 240 quilômetros a norte de Tóquio, como sendo de nível quatro (acidente com consequências locais). O nível sete foi usado apenas uma vez, para o desastre de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. O acidente de 1979 na usina nuclear da ilha Three Mile, nos Estados Unidos foi classificado como sendo de nível cinco.

"Agora estamos em uma situação diferente de ontem. Está muito claro que estamos agora em um nível seis, que é um nível intermediário entre o que aconteceu na ilha Three Mile e Chernobyl", disse o presidente da ASN, Andre-Claude Lacoste, em coletiva de imprensa em Paris nesta terça-feira. "Estamos claramente em uma catástrofe", disse Lacoste, citando a deterioração da estrutura de contenção do reator Daiichi 2 como um dos principais elementos que sustentam a avaliação pessimista da ASN.
Pânico - A falta de controle sobre a situação da usina nuclear tem deixado a população em pânico. Em Tóquio, onde há risco de a fumaça radioativa chegar, os estrangeiros estão deixando a cidade ou têm permanecido em locais fechados. As prateleiras dos supermercados estão se esvaziando, apesar de as autoridades garantirem aos cidadãos que as condições estão controladas.
Já as agências de viagem em Tóquio registraram um grande número de reservas feitas por estrangeiros, mas ainda havia passagens disponíveis para a maioria dos voos hoje. Empresas com funcionários estrangeiros também estavam retirando alguns integrantes de suas famílias. Mas os planos de saída parecem ser mais temporários do que permanentes.

Alguns moradores estrangeiros receberam um aviso dos representantes locais de seus governos. A Alemanha recomendou que seus cidadãos considerem a hipótese de deixar a Grande Tóquio, segundo um porta-voz da embaixada alemã. A embaixada francesa disse que vai evacuar 280 pessoas das áreas mais atingidas da capital japonesa.
Credibilidade - O governo do primeiro-ministro Naoto Kan já era impopular antes dos desastres. "Esse governo é inútil", disse Masako Kitajima, 50 anos, funcionária de um escritório de Tóquio. Tóquio Masashi Yoshida, 53 anos, concorda. Quando questionado sobre a sua avaliação sobre o desempenho do governo, respondeu: "É horrível. Eles têm dado informações muito tarde. Eles deveriam ter consultado outros países e especialistas. Eles tentaram muito fazer tudo sozinhos. Acho que eles próprios entraram em pânico, e não conseguiam pensar direito. O Japão estaria melhor se ficássemos sem políticos por 10 anos."

Até mesmo o prefeito de uma cidade próxima ao complexo nuclear Fukushima Daiichi reclamou que o governo não tem mantido o seu gabinete atualizado sobre a situação. "Temos pedido à província e ao governo para que nos dêem informações rapidamente, mas temos tido de tirar informações à força," afirmou Katsunobu Sakurai, prefeito de Minamisoma.

A confiança da população no governo e nas autoridades nucleares é essencial para evitar o pânico desnecessário, disseram especialistas. "É uma questão de legitimidade e de quanto você acredita na organização", disse o professor Steven Reed, da Chuo University. "Significa que as pessoas não necessariamente cooperam quando o governo pede que façam algo." Alguns meios de comunicação locais também começaram a adotar um tom crítico ao governo e em especial à proprietária da usina nuclear afetada, a Tokyo Electric Power Co., por não manterem a população bem informada sobre a situação. 

As autoridades da empresa deram várias entrevistas coletivas, mas falam rápido e usam termos que vão além do que as pessoas comuns costumam usar. "Informação é a essência do controle de crises", disse um editorial do jornal Mainichi, ressaltando a precária coordenação entre primeiro-ministro, autoridades de segurança nuclear e a Tokyo Electric. "Baseado em informações em tempo real, é vital para o governo se unir a especialistas em energia nuclear e radiação, a gerenciadores de crises e especialistas em relações públicas e em comunicações sobre risco para trabalhar para tornar as informações disponíveis."
Ajuda - As iniciativas globais para ajudar o Japão devem se concentrar nas preocupações de longo prazo, como o aconselhamento pós-trauma e o auxílio às pessoas na reconstrução, disse Patrick Fuller, do grupo internacional de ajuda humanitária Cruz Vermelha.

Um dos países mais ricos do mundo e acostumado a lidar com terremotos, o Japão estava preparado, como possível, para responder a uma crise como essa e tem usado a enorme quantidade de ajuda oferecida para buscar especialistas do exterior. Até agora, as equipes de resgate e as unidades médicas têm liderado os esforços de ajuda internacional para o Japão, mas a esperança de encontrar sobreviventes está diminuindo.

Fuller afirmou que o auxílio humanitário vindo do exterior deveria ter como objetivo agora fornecer benefícios duradouros. "As pessoas perderam muita coisa, perderam suas casas, seus parentes, então um dos focos para nós é ser capaz de dar aconselhamento após o trauma", disse ele à BBC desde o norte do Japão. "O estresse é um fator importante para as pessoas nesse tipo de situação, mas também ajuda na recuperação num prazo maior. Eles vão precisar de financiamento para se colocarem de pé de novo, para reconstruir suas casas."

Terremoto - terremoto que atingiu o Japão na sexta-feira foi o quarto maior já registrado no mundo e o país está diante de uma nova possível catástrofe, depois do vazamento de baixos níveis de radiação de uma usina nuclear danificada, que seguiram rumo a Tóquio. O governo japonês pediu que a Agência Internacional de Energia Atômica, com sede em Viena, envie "missões de especialistas", mas os detalhes ainda têm de ser acertados.

Os Estados Unidos enviaram uma unidade especializada, com especialistas nucleares e especialistas em resposta a desastres e equipes de busca e resgate em áreas urbanas, incluindo 12 cães farejadores para ajudar na busca por sobreviventes.
A embaixada norte-americana em Tóquio forneceu 100.000 dólares iniciais em assistência imediata a alívio de desastres. As ofertas de ajuda vêm dos países mais pobres também. A cidade afegã de Kandahar, por exemplo, doou 50 mil dólares.

(Com agências France-Presse e Reuters)

Glossário Usinas nucleares

Glossário

Usinas nucleares

Derretimento: Dano grave ao núcleo do reator nuclear, causado por superaquecimento. O derretimento do núcleo ocorre quando uma falha severa do sistema de refrigeração impede o resfriamento apropriado do núcleo do reator. Sem refrigeração, as varetas de combustível nuclear esquentam até derreter. A situação é considerada grave porque há risco de vazamento do material radioativo (o combustível nuclear). Além disso, o derretimento faz com que o núcleo do reator fique instável.
Reator nuclear: Local onde acontece a reação nuclear em cadeia. Existem vários tipos de reatores. O mais utilizado é o reator de água comum a pressão. É o tipo presente nas usinas de Angra I e II, no Rio de Janeiro, e nas usinas japonesas.
Reator de água a pressão: Reator refrigerado por água a uma pressão altíssima - para impedir a ebulição do líquido. O calor é conduzido a um gerador de vapor de água. Esse vapor produzido indiretamente gira uma turbina que gera a eletricidade.
Blindagem: Estrutura que reveste o núcleo do reator. É construído com paredes de concreto reforçado e liga de aço. Evita que a radiação escape.
Compartimento: Recipiente que contém o núcleo de um reator nuclear, a blindagem, o refletor de radiação, a água radioativa, parte da refrigeração e outros componentes.
Contenção: Estrutura de concreto que envolve o reator nuclear. É uma medida de segurança para impedir que uma explosão libere radiação no meio ambiente.
Varetas de combustível: Estrutura cilíndrica que contém o combustível nuclear (normalmente urânio), disposto em pastilhas. Fica dentro da blindagem. É a primeira barreira a impedir o escape do material radioativo.
Revestimento do combustível: Cobertura que contém as varetas de combustível. É um recipiente hermético que abriga o combustível nuclear. Impede a saída dos produtos da fissão nuclear e garante a resistência mecânica que assegura a integridade do combustível. Fica dentro do compartimento.
Circuito de refrigeração externo: É o circuito de água que parte de uma fonte natural (rio, represa, lago, mar) para condensar o vapor de água depois que ele movimenta a turbina (semelhante às usinas termoelétricas de carvão e gás). Esta água nunca entra em contato com o combustível nuclear e volta ao rio, represa ou mar, a uma temperatura ligeiramente superior à inicial.
Circuito primário de refrigeração: Sistema fechado em que circula o fluido de refrigeração (composto em grande parte por água) de um reator nuclear. É o circuito que está em contato direto com as varetas de combustível, extraindo o calor gerado no núcleo pela reação nuclear.
Circuito secundário de refrigeração: Sistema fechado por onde circula água que extrai o calor do sistema primário, sem se misturar com ele, para se transformar em vapor e incidir sobre a turbina e produzir eletricidade. O intercâmbio de calor entre os circuitos acontece no gerador de vapor, de modo que a água que gira a turbina nunca está em contato direto com o combustível.
Fissão nuclear: Reação nuclear que consiste na ruptura do núcleo pesado de um átomo (geralmente de urânio) em dois átomos menores. Essa ruptura é responsável pela emissão de energia que esquenta a água do sistema de refrigeração, utilizada para gerar o vapor que gira uma turbina, produzindo eletricidade. É o processo que acontece nas usinas nucleares.
Fonte: El País / Comissão Nacional de Energia Nuclear / Eletronuclear

14 de mar. de 2011

Japão busca ajuda dos EUA para resfriar usina nuclear



País tenta evitar catástrofe nuclear após reatores da usina de Fukushima entrarem em colapso

14 de março de 2011 | 15h 02
O Japão solicitou o auxílio dos Estados Unidos para controlar a situação em suas danificadas usinas nucleares, após o terremoto e tsunami na sexta-feira passada, afirmou hoje a comissão regulatória nuclear americana.
"O governo japonês pediu formalmente a assistência dos Estados Unidos, no momento em que continua a responder às questões relativas ao resfriamento da usina nuclear geradas por um terremoto e um tsunami em 11 de março", afirmou a agência, conhecida pela sigla NRC.
 "Como parte de uma resposta mais ampla do governo dos EUA, a NRC está considerando possíveis respostas ao pedido, que incluem o fornecimento de conselhos técnicos."
A NRC já enviou dois especialistas em reatores do mesmo tipo daqueles que apresentaram problemas no Japão, como parte de uma equipe da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). Eles estão "atualmente em Tóquio oferecendo assistência técnica", revelou a NRC.
Além disso, a NRC monitora a situação nos reatores japoneses de sua sede em Maryland 24 horas por dia, porém "não irá comentar de hora em hora os acontecimentos dos reatores japoneses". A agência nota que essa questão é primariamente de responsabilidade do Japão.


EMBAIXADA E CONSULADOS BRASILEIROS NO JAPÃO


Utilidade pública

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Consulado-geral em Hamamatsu

Barras de combustível nuclear ficam expostas novamente



Superaquecidas, elas correm o risco de derreter, danificando o reator e levando a um amplo vazamento de material radioativo, de acordo com especialistas

Manifestantes carregam velas decoradas com adesivos antinucleares em Berlim, após desastre no Japão
Manifestantes carregam velas decoradas com adesivos antinucleares em Berlim, após desastre no Japão (Johannes Eisele / AFP)
As barras de combustível do reator nuclear 2 do complexo japonês Fukushima Daiichi ficaram expostas pela segunda vez nesta segunda-feira, depois que o local foi danificado peloterremoto na sexta-feira, informou a operadora da usina, Tokyo Electric Power Co. Normalmente cercadas de água, as barras estão superaquecendo e correm o risco de derreter se o nível de água no reator cair demais e deixar as barras muito expostas. Um derretimento poderia danificar o reator e levar a um amplo vazamento de material radioativo, de acordo com analistas. Diante do agravamento da situação, o Japão fez um pedido oficial de ajuda aos Estados Unidos.
As barras, formato no qual o urânio é moldado dentro do reator, haviam ficado expostas parcialmente mais cedo, mas os especialistas conseguiram estabilizar a situação, utilizando inclusive água do mar para aumentar o nível de água do sistema de resfriamento. Segundo a Tokyo Electric Power Co., a exposição ocorreu porque o canal de ventilação do vapor produzido pelo aquecimento do reator foi fechada acidentalmente nesta segunda-feira, causando uma nova e repentina queda do nível de água de resfriamento.
Três dos seis reatores de Fukushima estão aquecendo em níveis perigosos, e as autoridades correm para evitar um derretimento - que aumentaria o risco de danos ao reator e de um possível vazamento nuclear. O maior temor é de um grande vazamento de radiação do complexo em Fukushima, 240 quilômetros ao norte de Tóquio.

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Ajuda - O chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, uma agência da ONU), Yuki Amano, disse nesta segunda-feira que o governo do Japão pediu ajuda a seus especialistas para lidar com a crise nuclear que aflige o país desde o terremoto de magnitude 8,9 seguido de tsunami que atingiram o país na sexta feira, provocando mortes e destruição.
Amano, que é um veterano diplomata japonês, disse que o tremor e o maremoto abalaram e inundaram usinas nucleares na região, mas que os reatores permaneceram intactos e que o vazamento de radiação foi limitado. "As autoridades japonesas estão trabalhando o máximo que podem, sob circunstâncias extremamente difíceis, para estabilizar as usinas nucleares e garantir a segurança", disse Amano em comunicado aos membros da agência.
Segundo ele, as autoridade da AIEA e do Japão estão discutindo os detalhes sobre como será a cooperação. A usina nuclear de Fukushima 1, a 240 km ao norte de Tóquio, sofreu explosões em dois de seus reatores, no sábado e nesta segunda. O acidente já é considerado o pior do mundo desde o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Medidas Diante da crise nuclear, o Japão forneceu 230.000 unidades de iodo estável para abrigos de pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas por conta do terremoto seguido de tsunami do dia 11 de março, como medida cautelar na emergência nuclear vivida no país, informou nesta segunda-feira a agência de fiscalização atômica da ONU. Citando informações recebidas das autoridades japonesas, a AIEA disse que cerca de 185.000 moradores em áreas próximas às usinas nucleares afetadas pelo terremoto da sexta-feira haviam sido retirados de suas casas até 13 de março.

O iodo pode ser usado para ajudar a proteger contra câncer de tireoide no caso de exposição radiativa em um acidente nuclear. "O Japão distribuiu 230.000 unidades de iodo estável para abrigos da região em volta das usinas nucleares de Fukushima Daiichi e Fukushima Daini, segundo autoridades", disse a AIEA em sua página no Facebook. "O iodo ainda não foi ministrado às pessoas dos abrigos; a distribuição é uma medida de precaução, para o caso de ser considerada necessária a prescrição de iodo", disse a agência.
(Com agência Reuters)

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