18 de jan. de 2010

A CULTURA BRASILEIRA


A Cultura Brasileira

O mundo caminha aceleradamente para uma nova gênese. Estamos verificando que as nações e os povos não mais são conquistados pelas guerras, como acontecia na Antigüidade. Não é mais a força militar que determina o poderio de um povo e as suas conquistas. Os impérios também não são mais formados pelo poderio econômico. Com a globalização da economia, com as transnacionais e com a força dos órgãos internacionais, cada vez mais o capital não é fator determinante do poder de um povo sobre outro, de uma nação sobre outra ou de um grupo sobre o outro.
Cada vez mais o homem busca o conhecimento. Cada vez mais a cultura é reconhecida como o tesouro maior de um povo e de uma civilização. Ela é a conquista maior que temos, é o legado que deixamos para as gerações seguintes.
A sobrevivência de uma nação está diretamente ligada à força de sua cultura. As fronteiras de um povo serão determinadas pelo alcance e pela divulgação dela. Estamos verificando a Europa sendo transformada em um país; estamos vendo a Europa unida. As fronteiras estão desaparecendo e os países passam a ser parte uns dos outros. Estamos vendo continentes.
Recentemente, os governos dos países europeus reuniram-se, preocupados com a pasteurização que se está verificando em suas sociedades. Essa homogeneização imposta pelos meios de comunicação e fruto da globalização está descaracterizando as sociedades que, antigamente, e até muito recentemente, tinham características bem distintas. Se a Europa, continente de tradições culturais seculares, está preocupada com a descaracterização de suas origens e raízes diante da globalização e os governantes resolveram investir verbas vultosas em suas culturas populares e folclóricas para preservação da identidade, o que dizer de nós, aqui no Brasil? Somos um país jovem e dentro de mais alguns anos vamos ter a ALCA, com a América unida. Esperamos que seja unida, justa, mas temos muitas dúvidas a respeito disso. O que será de nossa cultura, da nossa sociedade e da civilização brasileira?
Isso me preocupa, porque ainda estamos vivendo um período em que não temos essa união, verificando-se uma descaracterização acelerada da cultura brasileira. Considero, inclusive, absolutamente errados os mecanismos atuais de incentivo a esse quesito. O Brasil está criando sistemas que são incentivos à cultura universal e alienígena, mas não à brasileira.
Recentemente, há dez anos, começamos a ter leis de incentivo à cultura. O que essas leis fizeram até agora? Onde está ela? Está desassistida. As maiores expressões que verificamos em nossa sociedade são atos de marketing e de valorização de marcas comerciais que se refletem nos grandes eventos culturais. Basta verificarmos o nome dos nossos eventos: Free JazzCarlton DanceKaiser Rock. Onde está a brasileira? O que isso tem a ver com o maracatu, com o bumba-meu-boi, com o caboclinho, com a essência nacional? Não vemos isso refletido no noticiário dos jornais ou da televisão. O que existe é uma ação mercadológica, como se fosse um complô contra nossa nacionalidade. Os pequenos grupos folclóricos e da cultura popular e as pequenas e as médias companhias teatrais têm dificuldade muito grande de acesso aos incentivos. Quem tem acesso a isso são os grandes grupos e os grandes produtores que, em sua maioria, estão ligados a grandes grupos econômicos, que valorizam seus interesses comerciais em detrimento dos interesses nacionais.
Sou economista e homem acostumado a fazer projetos. Levei sete meses e fiz exaustivas visitas a Brasília e ao Rio de Janeiro para atender ao que era exigido. Para aprovar o meu primeiro projeto, tive de preencher nove formulários, treze anexos e apresentar oito certidões. Ainda tive de cumprir algumas exigências.
Qual é o grupo brasileiro que se pode dar ao luxo de fazer isso? Em sua grande maioria, a arte brasileira funciona independente de burocracia. Quem pode se submeter a essa forma estatizante que emperra a obtenção desses supostos incentivos?
O que aconteceu, a bem da verdade, foi que, com tantas exigências, o apoio à atividade cultural desapareceu. Antes, os produtores iam às em presas e pediam um quilo de miçangas, dez quilos de plumas, madeira. Agora, não podem fazer isso. Na primeira fase da lei, a empresa simplesmente contabilizava o que era feito como doação e apresentava no seu Imposto de Renda, e a coisa funcionava. Agora, o projeto cultural tem de ser prévio, o que é uma ingerência. A atividade no Brasil passou a ser aprovada pelo Ministério da Cultura. Acabou a espontaneidade! Se o projeto não for aprovado, não há como receber nada, o que dificulta a produção.
Estamos vivendo um momento de extrema carência de recursos para a produção brasileira. Por outro lado, não podemos deixar de pensar que a cultura é o fator determinante da cidadania, é o que vai determinar a sobrevivência do povo brasileiro. Sempre foi olhada como supérfluo. Devemos mudar a visão que temos sobre isto.
A cultura é o elemento mais importante do desenvolvimento econômico de um povo. O elemento mais importante para diminuir as injustiças sociais. A indústria cultural é capaz de criar maior número de empregos no Brasil. É a atividade que maior benefício traz ao país. No entanto, é sempre relegada a segundo plano.
Passei quinze anos fora do Brasil, em auto-exílio. Não damos importância aos nossos valores, não conhecemos o Brasil e não conhecemos a cultura brasileira, que não se encontra nos grandes centros, mas na periferia, noNorte e no Nordeste. O mundo inteiro a reverencia.
Por que não investir de forma eficiente e encontrar mecanismos de apoio para que criemos empregos e possamos aumentar o turismo cultural? Seria uma forma de atrair, inclusive, o investidor estrangeiro. Aquele que vem atrás desse tipo de turismo é capaz de investir no País. Uma forma de atrair o capital estrangeiro é vendê-la e incentivá-lo.
Pergunto-me por que o Brasil, que recentemente criou para a pequena e para a microempresa o imposto Simples, pois não têm infra-estrutura para cuidar de tantos impostos, não faz uma lei simples nessa área? Por que não pensamos em diferenciar o pequeno produtor cultural, que não tem infra-estrutura burocrática e administrativa, para que se possa seguir os mesmos princípios do grande? Por que não valorizamos a produção, baseada na cultura brasileira, com incentivos maiores do que aqueles que estão simplesmente servindo de elemento de valorização de uma marca? Temos de pensar nessas coisas.
Verificamos que existe uma carência de financiamento. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico recentemente incluiu o “S”, passando a ser Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Esse “S”, parece-me, entrou apenas para que ficasse politicamente correto, porque não o vemos. Eu gostaria de vê-lo financiando as atividades sociais com a mesma ênfase que dá ao desenvolvimento econômico. A cultura é o vetor mais importante de desenvolvimento econômico da Nação e o fator primordial, principalmente nas regiões mais carentes do Brasil, para a criação de novos empregos, que é um problema nacional.
O dinheiro investido, recentemente, na fábrica da Volkswagen, que criou duzentos empregos, poderia ter criado duzentos mil empregos no Nordeste. Esses duzentos mil empregos no Nordeste atrairiam – o fator é dezenove – esse número multiplicado por dezenove de outros empregos, que, por sua vez, atrairiam o capital estrangeiro. A indústria cultural é a que mais cresce no mundo e a que tem melhor retorno.
Os senhores se lembram de Nova York, em 1975. Decretaram a falência de uma cidade do mundo capitalista. O prefeito daquela cidade, na época, pegou o seu caixa – havia parcos recursos, insuficientes para que qualquer projeto de sua administração pudesse ir adiante – e destinou a verba aos artistas para que falassem do amor que tinham pela cidade. Essa pequena verba resultou na campanha “I love New York”. Devido a esse refrão, a Broadway se revitalizou. Era uma cidade extremamente violenta. Eu morava lá naquela época. As indústrias, o comércio e os serviços saíram de lá, indo para os arredores. A cidade tinha um índice de desemprego altíssimo, o maior dos Estados Unidos. Com a criação do grito de amor por ela e com os espetáculos que aconteceram na Broadway, vieram os turistas; com eles, os hotéis encheram; os restaurantes tiveram de contratar mão-de-obra; a indústria de serviços foi aumentando; as conferências e as reuniões anuais das empresas passaram a convergir para lá novamente; a atividade da cidade começou a florescer de novo; os impostos foram recolhidos e as dívidas passaram a ser pagas. Nova York saiu da insolvência e voltou a ser – estava perdendo para Londres – o centro financeiro. Hoje, indubitavelmente, é a capital do mundo dos negócios.
Tudo isso ocorreu por causa de um bando de artistas que resolveu falar de amor pela sua cidade.
Não há um brasileiro que ouse falar do amor pelo seu País e pela sua cultura e que ache que temos de pensar na alma nacional. É hora de dedicarmos um pouco mais de atenção às expressões autênticas, que são as festas populares, as músicas e as danças do folclore, essência e base da nossa cultura verdadeira.
Fernando Bicudo
Diretor da Ópera Brasil

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